A imprensa estrangeira que cobre o Brasil descobriu hoje a Virgem. Não a de Fátima, não a de Guadalupe: a Aparecida, padroeira do país, que reaparece nas manchetes em plena campanha eleitoral, com uma formulação que dispensa comentários — nem as missas pela Virgem se salvam. O fio narrativo que se desenha é o da religião convertida em território de disputa, com Lula e Bolsonaro travando uma batalha declarada pelo eleitorado católico. É um enquadramento que trata o voto religioso como colégio eleitoral a ser conquistado, e não como prática de fé, o que diz menos sobre os fiéis do que sobre a imaginação de quem escreve de fora.
No mesmo movimento, a cobertura registra que apoiadores do presidente se reuniram na Praia de Copacabana e que Lula convocou a votar a duas semanas do segundo turno. São itens de campanha, previsíveis, e a novidade está menos no que dizem do que no que revelam de um repertório que se repete: rua, palanque, apelo ao voto. Há, contudo, um par de manchetes que foge ao script. Uma delas afirma, sem rodeios, que Bolsonaro não é Milei — uma distinção que a imprensa estrangeira parece precisar fazer em voz alta, talvez para corrigir uma analogia que ela própria ajudou a difundir. A outra, de tom abertamente militante, proclama Brasil contra o fascismo, Brasil livre, e assina embaixo de um vocabulário que a cobertura noticiosa em geral evita. Quando o enquadramento escorrega da descrição para o slogan, o leitor de fora recebe menos informação e mais adesão.
O restante do material é paisagem: uma dupla de atletas, mãe e filha, em busca de convocação, e novas representações artísticas do exterior em dois templos brasileiros. Nada disso é desprezível, mas nada disso é notícia no sentido forte. O saldo do dia é, portanto, um só: a eleição brasileira chegou à imprensa estrangeira pela porta da sacristia. Que a padroeira do país vire personagem de campanha é um fato que os jornais de fora registram com evidente interesse — e com uma pitada de espanto que talvez diga mais sobre o secularismo de quem observa do que sobre a religiosidade de quem é observado.