O El País América descobriu neste domingo que a política brasileira se faz nas ruas, e o registrou com a solenidade de quem presencia uma erupção: uma maré vermelha, diz o jornal, tomou a Avenida Paulista, impulsionada por jovens, adolescentes e pela comunidade LGBT, numa exibição democrática de força dos progressistas. Lula, proclamando que este país não pode perder a democracia e que não podemos permitir que o bandido volte a governar, embarcou com os seus na missão de mobilizar os 33 milhões de abstencionistas para virar o resultado. Faltam duas semanas.
Há, nesse texto, um dado que o próprio jornal enterra no meio da frase: a derrota parcial de uma semana antes sacudiu a esquerda como um choque elétrico. Ou seja, o ponto de partida não é a força, é o susto. A maré vermelha é descrita como resposta a uma derrota, não como afirmação de uma vantagem. O enquadramento, no entanto, prefere o vocabulário da ofensiva — virada, remontada, exibição de força —, e é aí que a cobertura estrangeira revela seu vício de sempre: transforma a necessidade em virtude e a reação em ímpeto. Um comício de recuperação vira, na pena do correspondente, o prenúncio de uma reviravolta.
O que o texto não diz é tão eloquente quanto o que diz. Não há uma linha sobre o conteúdo programático em disputa, sobre o que Lula promete além de não ser o outro, sobre o que os 33 milhões de abstencionistas pensam ou deixaram de pensar. A política brasileira, vista de Madri, é um drama de personagens e de afetos: o veterano político, o bandido, a democracia em risco. O eleitor comparece apenas como número a ser mobilizado — uma reserva de votos a ser acionada por quem tiver mais carisma de palco.
O resto das manchetes do dia confirma o padrão. O Brasil que interessa ao leitor estrangeiro é feito de futebol — um doblete de Agustín Giay pelo Palmeiras, um golaço de bicicleta de Geyse Ferreira, a contratação de Clarence Seedorf pelo Corinthians, uma suposta ruptura entre Vinicius Junior e Virginia Fonseca —, de alertas climáticos sobre a Caatinga virando semideserto e de um aviso de Lula sobre não se sabe bem qual corte de tesoura que levaria o país à miséria. Nada disso recebeu tratamento de texto completo. É paisagem, não notícia.
E há aquele item solto, um apelo de um Comitê Popular de Apoio a Lula. A imprensa estrangeira o registra sem saber o que fazer com ele, como se fosse um panfleto caído no chão. É, no entanto, o único sinal de que existe uma disputa política organizada, com militância, abaixo da superfície dos comícios. O jornal prefere a maré à organização, o espetáculo ao trabalho de formiga. Duas semanas antes de uma eleição decisiva, o retrato que chega de fora é o de um país que se decide em praça pública, por aclamação, e não por programa. Talvez seja mais fácil de vender. Também é mais fácil de errar.